sexta-feira, 29 de junho de 2012

abate

os olhos da minha juventude previram
os médicos que minha velhice namoraria
e as farmácias que minha idade se hospedaria
no fim, nasci berrado como bezerro,
e recomecei, caindo como um touro

sexta-feira, 22 de junho de 2012

flor

um asfalto brota na flor feia
no belo asfalto que hamoniza o mundo


sublime de betume e brita

a flor mancha
a beleza escura da estrada

e isso é belo
o homem se florifica
e se suja de natureza

eternidade

meu girassol é claro como um olhar
de uma puta apaixonada
as estradas velam hábitos
todo caminho novo é vício

até o espanto do gênesis
que a criança tem no parto
morre no desfecho da revelação
na monotonia do para sempre

e o mundo ainda espera
a eterna novidade
que sempre se repete

quinta-feira, 21 de junho de 2012

eu, gilgamesh

silhueta triste
coração gasto
pesar

falta de enkidu
semblante em pedaços
vigor decaído

rodolfo e enkidu
falta dupla do mesmo
da minha pantera do deserto

sábado, 16 de junho de 2012

silêncio

A palavra alcança a garganta
não sai do velho modelo repetido ponto a ponto
morre na língua

é um deus dos extremos
é ou não é

se morre
se não é extrema
se não é nem não é
nasce outro deus

da não-polaridade
além de cada ponta
que aos berros se impõe

para existir
ele precisa de um nome
e assim o novo deus morre
e nasce a palavra "silêncio"