sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Nota de Falecimento: Tito Antônio Andrade Rosas

É com pesar que informo que o poeta Tito A. A. Rosas morreu ontem de forma prosaica, em casa, vítima de um banal infarto do miocárdio, às 14h23, quando almoçava na rede da varanda. Por certo não seria mais necessário à existência e o Grande Deus dos Poetas o chamou mais cedo para seu seio. Seus poemas não estavam dramaticamente sobre o chão, mas simploriamente guardados em sua gaveta. Nenhuma última frase foi proferida, e nenhum insight derivou de sua última condição. Seu corpo foi encontrado hoje de manhã pelos amigos, que chamaram os vizinhos, que comentaram o fato e depois esqueceram. Seu corpo está sendo velado neste exato momento em uma Igreja improvisada no coração de outros poetas, mas talvez seja enterrado no coração de um só. Que descanse em paz, caro Tito Rosas.

Félix Maranganha

sexta-feira, 29 de junho de 2012

abate

os olhos da minha juventude previram
os médicos que minha velhice namoraria
e as farmácias que minha idade se hospedaria
no fim, nasci berrado como bezerro,
e recomecei, caindo como um touro

sexta-feira, 22 de junho de 2012

flor

um asfalto brota na flor feia
no belo asfalto que hamoniza o mundo


sublime de betume e brita

a flor mancha
a beleza escura da estrada

e isso é belo
o homem se florifica
e se suja de natureza

eternidade

meu girassol é claro como um olhar
de uma puta apaixonada
as estradas velam hábitos
todo caminho novo é vício

até o espanto do gênesis
que a criança tem no parto
morre no desfecho da revelação
na monotonia do para sempre

e o mundo ainda espera
a eterna novidade
que sempre se repete

quinta-feira, 21 de junho de 2012

eu, gilgamesh

silhueta triste
coração gasto
pesar

falta de enkidu
semblante em pedaços
vigor decaído

rodolfo e enkidu
falta dupla do mesmo
da minha pantera do deserto

sábado, 16 de junho de 2012

silêncio

A palavra alcança a garganta
não sai do velho modelo repetido ponto a ponto
morre na língua

é um deus dos extremos
é ou não é

se morre
se não é extrema
se não é nem não é
nasce outro deus

da não-polaridade
além de cada ponta
que aos berros se impõe

para existir
ele precisa de um nome
e assim o novo deus morre
e nasce a palavra "silêncio"

sábado, 25 de fevereiro de 2012

bagunça

não temos cultura
para apreciar o sagrado
para entender o vulgar

não temos cultura
para apreciar a justiça
para apreciar a igualdade
para apreciar a liberdade

não há justiça na eternidade
não há igualdade na eternidade
não há liberdade na eternidade

a eternidade faz fila atrás de nós
e está entre nós e o objetivo
que ponto sou entre dois infinitos?
meu século é uma piscada!

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Jeti Trensfirenchuchi Mirtuchi

Jindruzdé me compechón,
elgréi me tu-ejiudé
pimí tu Inibichi;

ilsi bolurechi isbenchón,
ilsi crei isbénquil,
ilsi binfechi Issi me Tíe.

Nu pretequeme Jen piríchui,
nu sijeme isprichiti,
nu echiteme tu sirindéui;

fecheme Isbati Gren
imidéui me gretónui.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

2012 o caralho!

– certeza? – perguntou risal.
o careca se sentou na janela da casa grande e só fez balançar o pé e chupar a manga.
– não acontece todo dia – disse o careca – mas aconteceu no dia. me envergonho de dizer que senti pânico.
– eu também sentiria se fosse você, mas não acha sua história um pouco estranha?
o careca desceu da janela e jogou a manga fora.
limpou-se com a barriga da camisa.
era nojento aos olhares de muita gente.
descalço, deu pouco caso ao chão quente.
devolveu um risor ainda mais aceso que o do incrédulo.
– é que sobrou pouca gente, aí tem pouca história pra contar.
saiu andando, e o incrédulo o acompanhou pela rua.
– não dá pra acreditar na sua história.
– então por que me segue?
o incrédulo parou e mirou o pensamento.
o careca parou também.
– todos no mundo sabem, lá no fundo, que a história é real, mas nem todo mundo tem tino pra saber.
– se for verdade – disse o incrédulo – você sabe que os próximos anos serão bem complicados – seu rosto parecia mais grave.
– você finalmente percebeu a verdade, apesar de achar seu medo meio despropositado.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

xadrez

meu xadrez tem poucos praças
trinta e dois
quadrados soldadizados

rei à falência
rainha indecente
na diagonal do bispo

desabençoa
cavalos a 90 graus

sem dama nem cortesia

rapunzel fugiu do alto
os tijolos não mandam notícias

e cá findo
sou peão
de iniciativa fodida
nas esperanças
de ser rainha

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

aladas

abandonando a cidade
viro estardalhaço.
abandonando às claras
viro sábio.

de cada casa em cada casa no nada
parto de passo em passo.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

sinfonia

que os mantos de menta mintam
sobre um monte de muitas coisas

montes tombam, outros zombam

broncas brancas brincam de dar castigo

sábado, 4 de fevereiro de 2012

calendário

o calendário gravado na face
agenda o dia da demissão

os meses enrugados
choram primaveras

o jardim é podado
no verão

cada ruga do outono
anuncia os meses derradeiros

e finalmente o réveillon
inverna o cansaço do corpo

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

validade

a parte se vale
do todo
pensado que tudo
no ponto exato
só vale no caso
se parte do todo

a parte se vale
do todo
se a fôrma do todo
no ponto exato
só vale no caso
das regras passadas
que levam ao todo

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

boemia

 madrepérolas douradas
emparedaram meu amontilado.

o vinho da morte bêbada
na rua canta em meio aos cães.

um uivo é tudo o que cheiro
na noite de cio de agosto.

na revelação morrem as matilhas
de bêbados leitores.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Vista!

fiz com deus uma entrevista,
vista-a-vista,
para a revista de Vesta,
em vista da revista
da oftalmologista que,
enquanto avistava minha vista,
foi vista pelo ativista
que gritou: vista!